Terceira leitura completa em 2026

12 01 2026

 

Nunca julgue um livro por sua capa.  Quantas vezes já ouvimos isso? Mas algo nesse livro de Alberto Manguel, nessa capa, me dizia, isso vai ser uma leitura vagarosa e chata.  Talvez tenha sido o tamanho do volume: nem livro de bolso, nem tamanho normal.  Talvez tenha sido a encadernação.  Não sei.  É fato que andou rolando por aqui já há um tempinho, passando de uma prateleira a outra. Mas que posso fazer? Impliquei com ele.  

Reorganizar livros na biblioteca, me levou a abraçar mais seriamente livros que ainda se encontram em capas plásticas: comprados e sem ler.  São muitos.  Minha desculpa é que organizo dois grupos de leitura, isso significa no mínimo duas leituras diferentes a cada mês, participo de um grupo, que não organizo (ainda bem!) que tem leituras mais leves.  Com todos esses compromissos durante o ano, é quase certo que não tenho tempo para ler  tudo que gostaria. Compro os livros que imagino querer ler, e eles pelo menos ficam rolando por aqui, à minha espera. Tenho até duplicatas de alguns, que havia esquecido que já comprara. Encontrei uns nessa organização. Foram doados. Novinhos em suas capinhas plásticas.  Mas fiquei determinada a acabar com uma pequena pilha e como tenho passado horas esperando profissionais da casa, ando lendo muito. 

Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões, de Alberto Manguel, tradução de Jorio Dauster, Cia das Letras, 2021 me conquistou.  Que delícia! São 184 páginas de prazer, para quem gosta de livros, para quem lê.  Alberto Manguel escreve sobre leitura, livros, emoções na leitura, bibliotecas, tudo que lhe toca à medida que empacota os mais de 30.000 livros para se mudar da França para Nova York. Ao longo de suas digressões aprendi muito, fiz listas de livros que precisava reler e me encantei com o que não sabia sobre outros livros que nunca li e que subitamente foram colocados na lista de leituras imprescindíveis.   Manguel relaciona as mais díspares leituras com facilidade e encantamento, trazendo para o leitor novas maneiras de pensar livros e ideias.  Esse é um livro para os que gostam de ler, e  que  se veem como leitores para o resto da vida.  Para eles, para mim, é um livro imperdível. 





Imagem de leitura: Joan Mayor

12 01 2026

Leitora, 1950

Joan Mayor (França, 1890-1970)

óleo sobre tela

 





O Siroco, texto de Jenny Erpenbeck

11 01 2026

O Siroco, 1909

Jan Ciaglinski (Polônia, 1858-1912)

óleo sobre tela, 29 x 37 cm

Museu Nacional da Cracóvia

 

 

 

“Richard então se lembra de que, passeando entre videiras com um colega vienense por ocasião de um simpósio no sul da Áustria, o colega de repente se deteve, inspirou profundamente o ar e perguntou-lhe se também ele estava sentindo o cheiro: o siroco vem da África, disse, atravessa os Alpes e, às vezes, chega mesmo a trazer consigo areia do deserto. E, de fato, nas folhas das videiras podia-se ver uma fina camada de poeira avermelhada vinda da África. Richard passou o dedo por uma das folhas e notou como aquele pequeno gesto de súbito deslocava seu ângulo de visão e seu senso de medida.”

Em: Eu vou, tu vais, ele vai, Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli, Cia das Letras: 2024

 

 

Duas notas:

1 – Esse talvez tenha sido o livro que li em 2025 que mais me impactou. Certamente estaria entre os três primeiros do ano passado, no início do ano.  Recomendo.  Esse meu final de ano foi tão conturbado, e ainda não está normal, que nem a lista dos melhores do ano eu fiz.  Que vergonha!

 

2 – Conheci o Siroco no ano em que morei na Norte da África acompanhando meu marido professor convidado pela Universidade de Oran.  É realmente um fenômeno sem igual.  O céu se torna avermelhado com o colorido do sol se pondo.  É a nuvem de areia do deserto que passa muito acima da terra, em direção à Europa.  Deixa, de fato, uma finíssima camada de pó (não é areia) avermelhado ao longo do caminho que faz em direção norte. 





Em casa: James Tissot

11 01 2026

À beira-mar, 1878

James Tissot (França, 1836–1902)

óleo sobre tela, 112 x 85 cm 

Museu de Arte de Cleveland





Religião no país, texto de Luiz Felipe Pondé

10 01 2026

Anjos, 1965

Raimundo de Oliveira  (Brasil, 1930-1966)

óleo sobre tela, 80 x 120 cm

 

 

 

 

“Olhe para o Brasil em termos de religião. O que é o Brasil? Aqui, como dizia Guimarães Rosa, quanto mais religião, melhor; você tem um amigo judeu, você pede para o rabino dele lhe abençoar, você tem um amigo do candomblé, você pede para a mãe de santo dele dar uma bênção, ao amigo muçulmano, você pede uma intervenção do xeique, padre, pastor, o que vier está valendo. Essa é bem a mentalidade brasileira religiosa. Antropólogos dizem que isso é possivelmente herdado dos índios brasileiros, que continuavam a praticar as suas crenças, mas, quando o padre vinha, aprendiam o pai-nosso, e quando o padre ia embora, retornavam às suas crenças. Então a gente ficou meio vadio com religião. Você assimila a religião que melhor pegar naquele momento. É claro que, quando se introduz a cunha do mercado, como a gente vive hoje, tudo vira produto.”

Em: Diálogos sobre a natureza humana: Perfectibilidade e Imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé, Versos Editora: 2023





Flores, porque hoje é sábado…

10 01 2026

Vaso com flores, 2001

Stella Bianco (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 80 x 97cm

 

 

Vaso com flores, 2002

Sou Kit Gom (Brasil, 1973)

acrílica sobre tela. 115 x 115 cm 





Trova da margarida

9 01 2026

 

Margarida vai passando
no seu traje original.
Pensa que está abafando,
parece um pavão real…

 

(Anônima, folclore nacional, cantiga de roda)





Da janela vê-se o Corcovado…

9 01 2026

Vista de Paquetá, 1959

Francisco Coculilo (Brasil, 1893 -1971)

óleo sobre tela, 32 x 42 cm





Segunda leitura completa de 2026

8 01 2026

 

Uma das minhas decisões para o novo ano: ler alguns livros que já havia comprado e que por qualquer razão foram colocados para depois e para depois e assim por diante.  Bela surpresa me esperava.  Zen na Arte da Escrita, de Ray Bradbury, autor do conhecido clássico do século XX, Fahrenheit 451 e também das Crônicas marcianas, é uma bela coleção de onze ensaios sobre a escrita.  Nesse pequeno livro de 160 páginas, publicado em 2020, pela Biblioteca Azul, aqui no Rio de Janeiro, com tradução de Petê Rissatti, o leitor tem a oportunidade de conhecer o processo da escrita de Bradbury, sua simplicidade, seus pequenos truques para chegar a um texto vendável, sua sensibilidade e comprometimento com a profissão a que se dedicara. 

Não é um guia, um manual para a escrita. Mas testemunhando o que ele fez, seu processo de escolha e preocupação com temas e principalmente com sua habilidade de deixar-se levar pelo processo criativo, sem saber ao certo como chegar ao ponto desejado é fascinante e estranhamente sedutor para todos nós que nos dedicamos à comunicação de nossas histórias.

O entusiasmo do autor, a alegria de escrever são pontos constantes nesses capítulos independentes.  Vemos também o quanto o exercício da curiosidade é condição imprescindível para uma boa história. Mas além disso, deu-me vontade de ler mais de seu trabalho. Ficou muito famoso pelos dois livros citados acima, mas sua produção é enorme, de contos, novelas, romances e até mesmo poesia.  Foi um tiro certeiro cobrir esse livro no início do ano.  Recomendo a leitura, não só por aqueles que escrevem, mas também por quem tenha curiosidade de abrir uma janela sobre o processo criativo de um dos mais produtivos escritores do século XX. 

Meu livro está rabiscadíssimo com passagens sublinhadas, anotações nas margens e desde o início da semana passada já me coloquei com caneta e papel na mão tentando imitar alguns de seus métodos para desenvolvimento da prosa.  Serei boa aluna?  Veremos.  Mas se não conseguir, não será por falta de um excelente mestre. 

 





Um engano, texto de Marcel Proust

7 01 2026

Cena de rua em Paris, 1885

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre madeira, 39 x 27 cm

Metropolitan, NY

 

 

“É muito possível, porque nunca na minha vida encontrei moças tão deliciosas como naqueles dias em que estava com uma pessoa muito grave, de quem não podia separar-me apesar dos mil pretextos que inventava; em Paris, alguns anos depois da minha primeira viagem a Balbec, ia eu de carro com um amigo de meu pai quando vi uma mulher andando muito depressa na escuridão da noite; ocorreu-me que seria tolice perder por uma questão de cortesia a minha parte de felicidade na única vida que sem dúvida existe; desci sem desculpa alguma e lancei-me em busca da desconhecida; perdi-a num cruzamento de ruas, dei com ela no seguinte, e afinal, sem fôlego, me vi cara a cara com a velha sra. Verdurin, da qual eu sempre fugia, e que me disse, muito contente e admirada: “Que amabilidade a sua, correr para vir cumprimentar-me!”

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana